Atrás do Crime - conquistando os leitores do Brasil

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terça-feira, 1 de julho de 2014

O TAPETE VERMELHO


- Parabéns! - disse Ricardo, o Diretor Geral - Você acaba de ser escolhida por toda a equipe diretiva como nossa Gerente. Vai nos representar nesse mesmo escritório, na Praça da Sé, substituindo a Fátima, que, infelizmente, foi demitida no mês passado. 
- Fico muita grata pelo voto de confiança. Darei o melhor de mim, serei a melhor Gerente que vocês já tiveram nesses anos todos! - prometeu Isabel, transmitindo sua alegria aos quatro cantos dos andares superiores, onde estavam instalados os funcionários de alto nível da empresa.
- Não temos dúvida quanto a isso – disse Ricardo. – Se duvidássemos do poder de sua vitalidade, certamente, não a teríamos escolhido. Você sempre foi tão vibrante, sempre tão disposta, tão viva... Consigo até sentir o cheiro do sangue que corre em suas veias, um sangue vistoso, forte!
“Ricardo tem um jeito tão estranho de falar”, pensou Isabel, que somente depois de ter sido nomeada Gerente passou a manter um contato mais próximo com o Diretor.
- Além disso, esse cargo que você está assumindo demanda muita responsabilidade e persistência. Conheço bem sua história nesta empresa, uma história típica de quem sempre teve que batalhar para subir na vida. Você é persistente, Isabel, até as paredes deste prédio tremem quando você passa! Parece até que salivam quando sentem a presença de sua carne! – riu ele, talvez por graça, talvez por ironia.
“Sinistro! O Diretor Geral é extremamente sinistro!”, falou dentro de si. Quando não passava de uma simples colaboradora, Ricardo nem sequer a cumprimentava; então, nunca teve a oportunidade de perceber o quanto as palavras que proferia eram estranhas. “Os comentários feitos nos corredores sobre a figura aterrorizante do Diretor fazem imenso sentido, agora que o conheço de perto”, concluía ela. Foi também naquele momento que pôde perceber que todos os seus passos eram muito bem conhecidos pelo Diretor Geral. “Pensei que nem soubesse da minha existência, mas quando afirmou que conhecia minha história nesta empresa, percebo que sempre fui observada”, concluiu, um pouco lisonjeada, um pouco temerosa.
Desconsiderando a pessoa apavorante de Ricardo, parecia um sonho ter sido finalmente promovida para um cargo de gerência. Havia passado por todos os setores, desde o mais ínfimo e mal remunerado, que se resumia a atividades repetitivas e que não exigiam nada do cérebro, até chegar onde estava agora. Alavancar a carreira havia sido dificílimo, foi necessária quase uma década para demonstrar sua capacidade de gerenciamento e suas habilidades em lidar com situações de estresse elevado.
Sim, tinha muita capacidade em lidar com situações como essa, quando os nervos estão à flor da pele e a pessoa está prestes a explodir em insultos e xingamentos. Esse aprendizado, na verdade, foi sendo gerado ao longo desses dez anos em que ia de sua casa (na periferia da grande São Paulo) ao trabalho, do trabalho à universidade e da universidade, novamente, a sua casa.
Sentia-se exausta só de lembrar todo o trajeto que fazia há tantos anos. “Quanta paciência e disposição ter que perder tantas horas diárias num transporte público!”, pensava. Lembrava claramente as duras viagens entrecortadas primeiro de ônibus e depois de metrô: horas ininterruptas de calor, de poluição e do congestionamento da grande metrópole. Demorava duas horas para chegar ao trabalho a partir do grande bairro onde vivia. Nove horas ficava no trabalho. Após isso, havia ainda o metrô, onde a luta pela sobrevivência se resumia em conseguir embarcar ou desembarcar na estação correta, o que era dificultado por milhares de pessoas que tinham o mesmo objetivo que o seu: entrar ou sair em meio à multidão. Do metrô à universidade, não de renome, mas de bom preço para quem recebia um salário indigno de tanto esforço. E finalmente, mais metrô e mais ônibus, dessa vez levando-a para o repouso dos justos.
Agora Isabel se espreguiçava na cadeira confortável de um espaço só seu! Não tinha disponibilidade de tempo para se dar ao luxo de tomar um cafezinho nem de relaxar na sua nova cadeira, contudo, merecia comemorar a nova conquista.
- Vou comprar um carro! É isso, com ar condicionado e direção elétrica! Chega de metrô! Chega de ônibus lotado! Depois compro um apartamento e moro aqui por perto.
E essa foi sua primeira aquisição: um automóvel. O trânsito ainda era caótico, mas ao menos ela passaria longas horas dentro de seu próprio carro, escutando sua música favorita sem ter que brigar por um espaço onde sentar ou, simplesmente, um mero lugar onde permanecer em pé.
- Por isso que paulistano supervaloriza automóveis, é como se fosse o seu segundo lar, já que é obrigado a passar tantas horas preso num engarrafamento! - sorri ela com essa conclusão, perdendo a noção do tempo que ainda levaria para chegar ao trabalho.
Voltando a refletir sobre a reviravolta que havia dado sua vida, Isabel analisava a empresa para a qual se dedicara completamente desde a juventude. Estabelecia-se num edifício muito antigo da capital. De sua mais nova sala, podia avistar a Catedral da Sé - uma gigante cercada de pobreza e sofrimento. Da janela, viu um mendigo perseguir um outro, munido de um pedaço de pau retirado não sei de onde:
- Devolve meu chinelo, seu sem-vergonha! - gritava ele. E embora houvesse um posto policial em frente à igreja, a polícia era lenta em agir, talvez porque estivesse habituada com essas situações e já não se sensibilizasse com a desgraça da vida alheia. Enquanto isso, pregadores de Jesus Cristo - concorrentes da Igreja Católica - utilizavam na rua, uma pequena caixa de som e microfone para difundir a palavra de Deus. Prostitutas uniformizadas estavam lado a lado, trocando risinhos com possíveis clientes.
- A vida é dura! - lamentou Isabel, mas com um fundo de esperança ao analisar as paredes recentemente pintadas de sua sala, com três cantos repletos de grandes armários antigos de madeira. A empresa não era uma multinacional da avenida Paulista nem da Faria Lima, mas ainda assim, poderia lhe propiciar um conforto nem mesmo imaginado anteriormente. Olhou o tapete vermelho novo sobre o qual repousava seus pés:
- Por que trocaram o tapete? O anterior não tinha mais de um ano de uso! - perguntou à copeira.
- O anterior estava manchado. Uma mancha impossível de ser removida.
- Mancha de quê?
A copeira baixou o rosto e ergueu os ombros:
- Nada não, só mancha mesmo.
Aquele era um dia perfeitamente rotineiro no trabalho. Ricardo aparecia de tempos em tempos para saber como estava indo no novo cargo:
- E então? Como está se saindo hoje? - perguntava ele, depois de sentar-se numa poltrona que ficava de frente para Isabel.
- Bem, um pouco cansada, devo confessar. Ser Gerente desta empresa demanda muita energia!
- Mas energia você tem de sobra, não é? - insinuava ele, levantando-se da pequena poltrona e tomando a posição lateral de Isabel. Tanta aproximação sempre deixava Isabel desconfortável. “Que invasivo!”, irritava-se. Poderia até dizer que Ricardo estivesse interessado nela, não fosse o fato de já ser comprometido.
Os três primeiros meses foram terrivelmente cansativos, embora pudesse ir e vir com o seu próprio carro. Nos finais de expediente, estava exausta, completamente esgotada e não tinha disposição para mais nada a não ser jogar-se em sua cama, recentemente trocada, e cair em sono profundo. Não via mais os amigos. Não conversava mais com a família. Não se animava a ler um novo romance. Nada. O trabalho roubava-lhe toda a vitalidade. “E pensar que Fátima foi demitida mesmo depois de trabalhar tanto quanto eu! Com certeza, ela deve ter cometido uma gafe muito séria, pois era uma das que mais se dedicavam à empresa!”, concluía ela, segundos antes de adormecer. 
Numa manhã, Ricardo trouxe diversos relatórios para que Isabel analisasse. Tratava-se de uma pesquisa de mercado sobre onde poderiam divulgar os serviços da companhia:
- Isabel, seu olhar sobre esses dados é fundamental! A propósito, você fica muito bem de vermelho - elogiava ele, retirando-se da sala sem disfarçar o olhar ousado em seu decote.
Estava irritada com aquele tipo de abordagem, então, concentrava-se nas tarefas que deveria de fazer e logo esquecia o inoportuno do Diretor Geral. Estava analisando dado por dado e fazendo anotações relevantes, quando ouviu uma batida leve no interior do armário gigantesco de sua sala. Levantou-se, abriu uma a uma as portas de madeira que emitiram enorme rangido. Dentro, papeis e mais papeis compunham o arquivo da empresa. Tentou verificar o que causara aquela batida: nada.
No dia seguinte, Isabel voltou a ouvir algo estranho daquele armário. E novamente, abriu uma a uma suas portas. Não identificando a proveniência do som, abriu também as gavetas. Nada de estranho, exceto por um gavetão que não conseguira abrir, restando-lhe, no entanto, uma fresta por entre a qual avistava um tecido vermelho que parecia ser o antigo tapete de sua sala. Como era complicado remover a gaveta, desistiu, afinal, tinha trabalho excessivo a ser cumprido e o prazo era estreito. 
Tendo voltado ao computador, ela observou arranhões em sua mesa, como de quem quisesse se segurar para não cair. As marcas estavam disfarçadas com verniz, mas, de qualquer forma, eram evidentes conforme a claridade do dia.
- Guilhermina, o que é isso? - perguntou à copeira.
- Não é nada, não. Apenas excesso de uso. A senhora sabe que os móveis não gostam de ser muito usados? Com esses aí é a mesma coisa: o ressentimento fica encravado na madeira, porque eles nunca puderam descansar.
- Ressentimento? Sei. E quanto aos arranhões? Ontem mesmo não notei esses arranhões!
- Não é nada, não - respondeu a copeira, dando de ombros.
Isabel não compreendera porque a copeira falava daquela maneira: “Móveis que nunca puderam descansar? Eu é que nunca pude descansar! Guilhermina deve estar louca!”. De todo modo, quando iria retornar à sua tarefa, viu que a poltrona, à sua frente, também estava rasgada.
- Não é possível. É essa copeira quem deve estar fazendo isso. Como posso receber os clientes num ambiente assim, cheio de arranhões e rasgos?
- Algum problema? - perguntou Ricardo, que sempre entrava em sua sala sem pedir autorização, mas que naquele dia preferia permanecer na porta.
- Imagina! Só chamei a Guilhermina porque estou sedenta por um café. Só isso! - falou, na expectativa de que Ricardo não percebesse a poltrona rasgada e a mesa arranhada.
- Oh, você toma muito café! É bom porque lhe dá energia para trabalhar com mais eficiência, não é?
- Claro, com certeza! - disse, fingindo voltar a concentrar-se nos relatórios. Se não desse atenção, talvez Ricardo não entrasse em sua sala e desistisse da conversa.
- Isabel, – disse ele – foi graças a pessoas como você que essa empresa foi fundada. Já tivemos muitos colaboradores dispostos a dar o sangue pelo seu trabalho.
- Dar o sangue? – perguntou ela, não entendendo onde Ricardo queria chegar.
- É só uma forma de dizer que já tivemos pessoas tão dedicadas à nossa empresa, que é devido a isso que conseguimos crescer no mercado.
- Ah, compreendo – disse-lhe, tentando dar o assunto por encerrado.
- Compreende? Então eu devo lhe perguntar: você daria o sangue por essa empresa? – indagou Ricardo, com um risinho no canto direito da boca, fazendo com que Isabel se sentisse ainda mais desconfortável do que de costume diante da presença daquele homem estranho.
- Não sei – respondeu Isabel, tentando deduzir o objetivo de tal pergunta. – Se você estiver falando do sangue como uma forma de expressão, ou seja, se quer saber se eu me dedicaria ao extremo ao meu trabalho, poderia dizer que sim. É só o que tenho feito ultimamente: me dedicado por completo. Mas se você estiver falando do sangue que corre em minhas veias, bem, eu diria que não, pois acredito que trabalhar é importante, mas a vida não pode se resumir a isso, o senhor não concorda?
- Tenho que discordar de você, Isabel. Não se chega a uma alta posição sem se deixar envolver totalmente pelo emprego. Essa empresa precisa de pessoas que se entreguem a ela de corpo e alma. Você pode nunca ter reparado, mas nessas paredes antigas estão gravadas as histórias de centenas de grandes profissionais talentosos. Basta tocar nelas para sentir uma vida palpitante vibrar em cada tijolo, em cada janela, em cada armário... – dizia Ricardo, acariciando a porta sutilmente e assustando Isabel com toda aquela eloquência maluca.
- As suas palavras são um tanto estranhas, Ricardo!
- Oh, sim – disse ele, percebendo que havia falado demais. – Bem, bom trabalho. Uma reunião me espera. Só não se esqueça disso: entregue-se e sua história também será gravada nessas paredes antigas!
Quando Ricardo finalmente se retirou, Isabel respirou aliviada. Ele não havia percebido o estrago na poltrona e na mesa de sua sala. Sozinha, ela refletiu sobre o que estava acontecendo: “Essa copeira deve estar tentando me prejudicar. Só pode ser ela! Deve ser cúmplice de alguém que almeja tomar o meu cargo. Essa história não vai ficar assim!” - irritou-se Isabel, gritando para que a copeira retornasse à sua sala o mais rapidamente possível.
- Guilhermina, o que é isso? Primeiro a mesa e agora a poltrona rasgada? Foi você quem fez isso? - perguntou, quando, na verdade, desejava acusar e demitir a copeira para que não mais lhe causasse problemas.
- Não, senhora, dona Isabel. A senhora já trabalha aqui há tanto tempo e nunca percebeu algo de estranho neste lugar? - perguntou a pobre senhora, humildemente.
- Guilhermina, nunca tive tempo para observar nada além do meu próprio trabalho. Aliás, se eu descobrir que você está fazendo algo para me prejudicar, prepare-se para encontrar outro emprego! – ameaçou.
- Não faz isso, não, dona Isabel. Falta pouco para eu me aposentar. Aqui, os móveis e o prédio têm uma história macabra. A senhora já pensou em quantas pessoas já desapareceram desta empresa?
- Despedidas, Guilhermina, as pessoas foram demitidas porque não poderiam mais contribuir com a empresa! Isso acontece em quaisquer lugares. E eu nunca perdi meu tempo escutando as historinhas que contavam desse lugar. Sempre trabalhei arduamente, por isso que fui reconhecida e cheguei onde estou!
- Essas pessoas que sumiram não foram demitidas, não, dona Isabel, mesmo porque todas elas eram assim como a senhora: trabalhavam muito! A última moça, a Fátima, por exemplo, até dormia no escritório para dar conta de tanto trabalho! Não foi demissão, não. Por que a senhora não pesquisa no arquivo do RH e descobre o que ocorreu?
- Guilhermina, pessoas vão e vêm a toda hora. Por acaso foi a Fátima que pediu que você fizesse isso? Assim ela conseguiria o emprego de volta? Pois saiba que eu não roubei o cargo dela, ela que o perdeu por algum motivo que eu desconheço. Só posso garantir que a culpa não foi minha!
- Não é nada disso, dona Isabel. Não vejo mais a Fátima desde aquele dia em que foi “demitida”. Estou apenas lhe alertando a tomar cuidado! Existem tantas histórias sobre essa empresa que tenho até arrepios quando penso que tenho que trabalhar aqui! Mas não vejo a hora de me aposentar e sair daqui, viva, de preferência - explicava a copeira. – A senhora deveria tomar mais cuidado! Nunca percebeu nada de estranho? Nem quanto ao doutor Ricardo?
“Guilhermina fala coisas sem nexo, fruto de uma mente supersticiosa e ignorante”, pensava Isabel, já convencida da inocência da copeira. Apiedou-se daquela criatura e dispensou-a, não sem antes alertá-la:
- Você é que deveria tomar cuidado: com tanta fofoca e historinha, pode ser a próxima a perder o emprego. Agora pode ir.
- Sim, senhora - respondeu cabisbaixa. - Não vou mais falar sobre esse assunto - prometeu, retirando-se da sala.
O telefone não parava de tocar naquela manhã cinzenta. Sobre a mesa, vários relatórios a serem analisados. Depois que havia liberado a copeira, um imenso desejo por uma xícara de café provocava-lhe os sentidos! Entretanto, o tempo que lhe restava mal era suficiente para ler as últimas páginas dos relatórios e finalizar a sua apresentação à equipe diretiva. O cheiro de café invadia seu olfato e despertava-lhe o paladar. Não resistiu:
- Guilhermina, uma xícara de café, por favor.
A copeira pediu licença e entrou em sua sala. Foi neste momento que uma batida forte veio de dentro do armário.
- Mas o que é isso? - disse Isabel, dirigindo-se rapidamente até o armário, abrindo porta a porta.
- Não abra o gavetão, dona Isabel - clamou Guilhermina, com ares de terror. Ela sabia que as batidas só poderiam vir da gaveta onde o tapete velho estava guardado.
- Mas por que não devo abri-lo? - perguntou sem esperar resposta, já forçando até que o gavetão emperrado se abrisse por completo.
- Minha nossa! - gritou a copeira, já correndo sala afora.
Isabel, sem compreender a reação de Guilhermina, retirou o embrulho e constatou que esse era realmente o antigo tapete vermelho, substituído quando fora promovida. Então, sentiu um odor de podridão que mal pôde suportar. Espalhou-o no chão e não pôde conter um grito de pavor: o cheiro nauseante era de sangue proveniente da mancha do tapete. Afastou-se enojada, inconsciente do perigo que a espreitava. Um passo atrás e deu-se conta de que agora não só sua mesa e a poltrona, como também as paredes de sua sala apresentavam arranhões desesperados por toda a parte. Aqui e ali, conseguia distinguir algumas expressões faciais, atormentadas e aprisionadas nos móveis, no chão e até no teto de sua sala. Elas se comprimiam contra a superfície que as impedia de fugir, numa tentativa vã de liberdade. Muitos rostos não lhe eram estranhos. A curiosidade macabra a fez esquecer-se, por um momento, do terror que a dominava. Aproximou-se das faces, tentando reconhecê-las.
- Sim, eu conheço vocês! Pensei que haviam sido demitidos! – falou, percebendo que sua presença ali representava um perigo maior do que previra.
Recuou e foi tentando se aproximar da porta. Nisso, algo ainda mais aterrorizante aconteceu. Quis gritar e não pôde. O tapete vermelho ganhara vida e tentava impedir sua fuga. Foi então que pôde distinguir, como que um retrato humano pintado diretamente no tapete, a clara fisionomia de sua antiga colega Fátima, a quem substituiu como Gerente. A imagem estava tão nítida e parecia tão real, que podia ouvi-la gritar para que a libertasse daquele lugar.
- Socorro! – gritava ela, seu rosto se deformando ao passo que ela continuava a gritar. – Socorro! – repetia, enquanto seu corpo passava a ficar manchado com as ondulações do tapete que ganhara vida e que tentava aprisionar também Isabel.
Diante daquilo tudo, não restava outra saída a Isabel: a exemplo de Guilhermina, saiu correndo para fora daquele edifício terrível, cujas paredes eram feitas de inúmeras almas a clamar por liberdade. Estava agora ofegante, em frente da catedral, olhando com desespero o edifício no qual trabalhara por uma década. Sentou-se na escadaria da Igreja, tentando recuperar o fôlego. Dali de fora, quem visse aquele edifício sombrio, marcado pelo mofo e pelo desgaste do tempo, sentiria arrepios só de pensar que havia gente trabalhando naquele local – um local que lembrava muito bem os estabelecimentos dos filmes de terror.
- Como nunca reparei nisto antes? – pensava Isabel, já aliviada por ter sobrevivido ao ataque sobrenatural do qual fora vítima.
Anos se passaram e tudo parecia ter sido apenas uma estranha alucinação. Não contou o que lhe ocorreu para ninguém, temendo ser considerada louca. Tinha, no entanto, uma outra testemunha – Guilhermina. No dia seguinte ao ataque do tapete, encontrou-a no RH, pedindo demissão assim como ela. Ambas se entreolharam, mas não disseram uma só palavra. Nem era necessário: o silêncio era como se tivessem feito um pacto de nunca revelarem a ninguém o episódio que quase as assassinara.
Isabel teve que abandonar o sonho do alto cargo e não podia nem sequer prever se teria outra oportunidade como aquela na vida. Arranjou um emprego simples, com um salário baixíssimo, mas que não lhe sugava toda a disposição como o trabalho anterior. Sem ter como pagar mais as prestações, teve que vender o carro e voltar a disputar os espaços limitadíssimos dos ônibus e dos metrôs.
Apesar de tudo isso, ainda sentia-se feliz. Mesmo sendo imprensada por diversas pessoas tão trabalhadoras, e sofridas, como ela. “Sem carro, mas viva!”, sorria ela. Completamente viva, na Estação da Sé, à espera de um metrô lotado para ir para casa.