Atrás do Crime - conquistando os leitores do Brasil

Atrás do Crime - book trailer

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

O FÃ

   Aconteceu o que tanto queria. Ser reconhecida por um leitor na rua, ou melhor, numa churrascaria. Fiquei sem palavras. O garçom ofereceu-me uma maminha ultra-assada. Eu, gaúcha de carteirinha e certidão de nascimento, disse:

   - Prefiro malpassada. E quanto mais suculenta, melhor. Gosto da carne cheinha de sangue.
Ele me olhou de soslaio e de repente, perguntou:

   - Você não é aquela escritora que vive matando personagens? A tal da Cristiane Krum... Krumnauar (ninguém sabe mesmo pronunciar meu sobrenome!)

   - Sim, sou eu – respondi, toda feliz de ser reconhecida por um fã.

   O garçom sacudiu a cabeça, pensativo, com o espeto de maminha torrada na mão esquerda e uma faca afiada na direita.

   - Por que você matou o cara? Eu gostava dele, achava que aquele personagem devia viver.

   - Que cara?

   - Ah, você não sabe? Deve ter matado um monte de personagem, então.

   Remexi na cadeira:

   - Olha, apenas fui coerente com a história. Se o personagem morreu, é porque tinha que morrer – respondi, sem saber ainda de qual personagem o garçom falava.

   - Isso é egoísmo. Quando o leitor gosta, você vai lá e mata o cara? – Ele ainda segurava a faca. Parecia que a apontava para mim.

   - Ah, desculpe – era prudente não contradizer alguém armado.

   - Vai querer malpassada mesmo ou esta maminha serve? – agora a faca balançava de um lado a outro.

   - Serve sim, serve sim.

   Achei melhor uma carne torrada no meu prato do que crua. Sabe-se lá o que ele serviria depois. 


   

Cristiane Krumenauer
Autora de Atrás do Crime, Chamas da Noite e da série Contos da Namíbia

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

DiNaMiCiDaDe EcOnÔmIcA


   O celular de Afonso foi roubado por João que vendeu o aparelho ao Pedro da 25 de Março que revendeu a d. Fernanda que presenteou a filha Maria Teresa.

   Maria Teresa ficou feliz com o presente. Pena que alegrias assim duram pouco.

   Três dias depois, a menina foi assaltada por João que, uma vez mais, tratou de vender o aparelho a Pedro, na 25 de Março, e assim a economia do país estava garantida e a circulação monetária se dava... sem problema algum.



Cristiane Krumenauer
Autora de Chamas da Noite, Atrás do Crime e da série Contos da Namíbia

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

PeSsoAs ViVaS NuM ÁlbUm dE FotOgrAfiAs

   - Já escolheu seu presente de Natal, Beto? Já escolheu? À essa altura, saiba que seu delegado já foi lembrado pelo Papai Noel. O superintendente dele, também. Até o promotor e o juiz já foram agraciados... Não vejo por que um agente não pode também ganhar um presentinho.

   - Se o Papai Noel está envolvido em sujeira, doutor, então vou esperar meu presente de outro velhinho...

   Carlos chegou em casa exausto. Ninguém lhe enfrentava, exceto aquele inspetor de polícia medíocre, e isso vinha desde o primeiro dia em que se cruzaram. Ainda irritado, abriu uma portinhola secreta do escritório, escondida por um tapete suntuoso, e retirou de dentro algo que mantinha oculto aos olhos de todos.

   - Que é isso, papai? – perguntou o filho, que flagrou o pai mexendo no compartimento secreto.

   Um dossiê que pode me pôr atrás das grades, pensou em dizer, mas ao invés disso, respondeu:

   - Um álbum de fotografias, filho. Com tudo que eu já comprei na vida.

   O filho, curioso, sentou-se ao lado e pôs-se a folhear o livro. Ele ficava assombrado com o que via. A cada página virada, a mesma impressão esquisita de que as pessoas retratadas... eram reais! Não pareciam apenas fotografias. Algumas vezes, percebeu que elas até piscavam ou moviam a cabeça. Era um gesto quase imperceptível, mínimo. Mas verdadeiro. Bem verdadeiro.

   - Eu conheço este daqui – falou o menino.

   - Sim, verdade. É um político importante de Brasília.

   - E o senhor comprou ele, papai?

   - Bem... tudo tem o seu devido preço.

   - E existe algo que o senhor não tenha conseguido comprar?

   Carlos pensou em Beto, o agente que ousara lhe dizer não.

   - Filho, preste atenção no que vou lhe falar. É um sábio ensinamento que herdei de seu avô: se não conseguir comprar algo ou alguém, é por que não usou a estratégia certa. Se alguém não estiver à venda, compre o irmão, a mãe, o tio, enfim... mas compre, porque comprar pode ser um bom investimento.

 O menino concordou, sem entender direito nem dar tanta importância. Apenas continuou folheando o álbum até chegar a outras fotografias que falaram alto ao seu interesse.

   - Ah, veja, papai, é a mamãe! Ela está segurando a mão... de um policial? E na página seguinte, um bebê? Ora... sou eu!

   Alexandre sorriu, satisfeito:

   - É, filho, você vê? Sou mesmo um especialista neste mercado.

   

Cristiane Krumenauer é autora de Atrás do Crime, Chamas da Noite,
Memória, Imaginação e Narração e da série Contos da Namíbia.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

J R Fontes - O Doutor da literatura policial brasileira


A Maldição do Nome
Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2011.


Olá, leitores fascinados pelas estimulantes estórias policiais. Hoje, tem matéria sobre Joaquim Rubens Fontes e sua obra A MALDIÇÃO DO NOME (Edições Galo Branco, 2011). Ele é autor premiado de nove livros e conhece como ninguém como escrever um bom mistério! Vamos a ele? 



RESUMO:

Uma das tristes marcas herdadas pela República, especialmente no interior, foi o coronelismo. Qualquer cabo eleitoral considerava-se competente para controlar a vida das pessoas e nomear as autoridades municipais, com poderes sobre a vida e a morte das pessoas. Bastava não ter muito caráter, nem se importar com a ética, e ter prestígio junto aos homens do governo.

Muitas cidades se tornaram feudos de famosos coronéis, geralmente filhos de famílias importantes, que tinham forte ascendência sobre o delegado, os vereadores, o prefeito, o juiz e, quase sempre, até sobre o pároco. Para sobreviver, a população era convencida a adotar a política de não se importar com eles, para não ser perturbada. Os poucos que se revoltavam eram forçados a mudar de opinião, a calar ou a desaparecer da cidade, para fugir às mais terríveis ameaças.

Inconformado com a perda de uma amiga, Da Mata, modesto professor da escola, quis saber das circunstâncias do acidente que a vitimara e acabou posto contra o exército inimigo. Mas não se intimidou. Ex-repórter, conhece os segredos de uma investigação. A seu lado, apenas uma cadela, Kara, cujo nome, lembrança de uma amaldiçoada princesa egípcia, leva pânico às hostes inimigas. E Kara é realmente a heroína dessa aventura.



ANÁLISE

   Em se tratando de literatura policial, parece ser suficientemente agradável ao leitor o crime e a investigação que leva o “detetive” a explorar os caminhos escusos até chegar a um culpado. No caso de Joaquim Rubens Fontes, entretanto, tenho que frisar um quê a mais em seu romance: a presença mística e, ao mesmo tempo, heroica de Kara, uma rottweiler que trata de uma questão sempre existente quando o gênero literário é o policial. Refiro-me à ambiguidade bem e mal.

   Kara, a linda rottweiler, representa em si toda essa disputa constante entre o certo e o errado. Ela, por si só, é boa e má concomitantemente, sendo, portanto, ambígua.

   Por sua vez, Kara também não é apenas uma cachorra. Simbolicamente, ela representa o corpo do seu dono, o professor Da Mata, bem como substitui as armas que ele não pode possuir por não ser um agente da lei. Assim, quando as batalhas forem travadas, caberá a Kara não só proteger o dono como também ajudá-lo a derrotar os inimigos fortemente armados.

   Já Da Mata, o protagonista, vai atuar como o cérebro da investigação contra o crime organizado, chegando mais longe que a própria polícia – corrupta, conivente com os criminosos. Motivado a apenas desvendar os mistérios que levaram uma amiga a morrer num acidente de automóvel, Da Mata vai descobrindo, passo a passo, uma rede poderosíssima do crime. Não é segredo para o leitor: todos sabem de imediato que os responsáveis são membros de uma tradicional família, os Floresta. O obstáculo maior, portanto, não é desvendar a identidade dos bandidos, e sim, colocá-los atrás das grades em um país em que o dinheiro compra impunidade.

   Como você, leitor, deve ter percebido, os nomes das personagens são bastantes simbólicos. De um lado, Da Mata – representando o bem e o agente pensante. De outro, os Floresta – representantes do mal e também agentes pensantes, embora o leitor não tenha acesso ao raciocínio deles, visto o narrador acompanhar a estória a partir da visão do mocinho do enredo.

   Refletindo sobre os nomes dos personagens, “Mata” consiste em um ambiente natural onde alguém pode caminhar com alguma dificuldade, mas ainda assim com alguma visibilidade. Comparando-se “mata” com “floresta”, a última tende a ser repleta de árvores, normalmente com copas mais altas, sendo mais escura e misteriosa.

   Jean Chevallier e Bertrand, no Dicionário dos Símbolos (Ed. Teorema, 1994), discorrem sobre o último termo:

Menos aberta do que a montanha, menos fluida do que o mar, menos subtil do que o ar, menos árida do que o deserto, menos escura do que a gruta, mas fechada, enraizada, silenciosa, verdejante, sombria, nua, múltipla, e secreta, a floresta de faias é arejada e majestosa; a floresta de carvalhos, nos grandes caos rochosos, é céltica e druídica; a de pinheiros, nas encostas arenosas, evoca um oceano próximo ou origens marítimas. E é sempre a mesma floresta. (Bertrand d’Astorg).

 Na literatura (...) a floresta gera angústia e serenidade, símbolo de opressão e de libertação.
Talvez seja por tudo isto que, em termos psicanalíticos, a floresta se encontra entre os grandes símbolos do inconsciente. Se pensarmos nos contos de fadas, lendas e mitos de muitas tradições, ou no folclore popular do mundo inteiro, veremos que neles abundam imagens de florestas que devem ser percorridas, atravessadas, e desvendadas nos seus caminhos labirínticos.
   Assim, cabe a Da Mata percorrer os labirintos do planejamento do crime até chegar aos verdadeiros chefes do poder, os Floresta, tendo que trilhar um caminho obscuro e repleto de perigos para que seu propósito se concretize.

   E, enquanto o mocinho vai fazer essa trajetória do pensamento (afinal, ele simboliza o cérebro), sua cachorra Kara vai atuar com o corpo. Ambos, unidos, tornam-se uma arma infalível, à altura do crime organizado, e terão condições de derrotá-lo.


SOBRE O AUTOR:

   Mineiro residente no Rio de Janeiro, Joaquim Rubens Fontes é Bacharel em Jornalismo e Letras, com especialização em Português e Filosofia Medieval. É Mestre e Doutor em Literatura Brasileira. 

   Trabalhou como repórter policial no jornal Gazeta de Notícias, no Rio de Janeiro. Foi por 31 anos, funcionário do Banco do Brasil. Lecionou no curso de Letras da Universidade Santa Úrsula. 

   Tem nove livros publicados, sendo um técnico e uma pesquisa de pós-doutorado. Sua produção literária já lhe rendeu oito prêmios.


***

   Antes de encerrar, gostaria de agradecer ao Joaquim, pois, enquanto esta matéria aguardava o momento certo para ser publicada, eis que recebo um presente lindo (e bastante útil, por sinal). Ah, eu adoro os Correios rsrs.



   Gostaram da matéria? Comentem, sigam o blog e compartilhem à vontade. Vamos juntos levar a literatura policial adiante!








segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

VeRdAdEs ReVeLaDaS



   D. Sônia era uma velhinha sem filhos, com alguns parentes aqui e ali, e cheia... cheia de dinheiro. A família, repleta de inveja, sequer telefonava no seu aniversário. De certo, pensavam que dinheiro comprava tudo, inclusive o papel de fazer companhia a um idoso.

   - E a D. Sônia? – perguntavam os vizinhos aos parentes da idosa.

   - Tá lá, cheia do dinheiro – era só o que respondiam, como se isso resumisse tudo. Era nítido até certo desprezo na resposta. Parecia que a boa senhora pecava por ter dinheiro, como se fosse algo sujo, algo que ser humano nenhum desejasse ter.

   Os anos foram passando e, obviamente, não traziam consigo nada de melhor a d. Sônia. Seu corpo, cansado; e o coração, sozinho, foram amargando o passar do tempo.

   Um dia, ela caiu doente. Acamada, foi visitada por amigos das redondezas, vizinhos, e até a diarista Albertina largou tudo que fazia para correr até a generosa d. Sônia, que a tirava do aperto várias vezes e abastecia a cozinha de suprimentos para alimentar os numerosos filhos.

   - Ai, d. Sônia, agora a senhora não pode mais ficar nesta casa imensa sozinha. Vou cuidar da senhora, virei todos os dias.

   Albertina se transformou em enfermeira, cozinheira, amiga, filha, enfim... em tudo que d. Sônia precisava. E encheu a mansão com seu falar alegre, rápido e sem correções gramaticais. Contava desde as novelas até as fofocas do bairro, e tanta disposição foi preenchendo o vazio da idosa, que logo se recuperou e pôde voltar à rotina com saúde dobrada.

   Os parentes logo ficaram sabendo, por boatos, pois há tempos que os pés não frequentavam a casa da idosa, que a diarista ganhava importância e podia representar um risco ao futuro dos bens que lhes seriam destinados. Passaram, então, a ver d. Sônia semanalmente, revezando-se entre si no sacrifício, a fim de avaliar o negócio de perto e garantir que d. Sônia não fizesse besteiras por causa da idade avançada. Aproveitavam, também, para fazer maledicências a respeito de Albertina. Segundo eles, essa não seria uma pessoa confiável, de modo que era um risco considerável manter pessoa com tão má reputação em casa habitada somente por uma idosa indefesa.

   D. Sônia silenciava diante de tais comentários. Apenas ouvia os parentes, enquanto tomava sua xícara de chá no deck que dava de frente para a piscina. Não refutava nem uma nem outra palavra, e assim, os parentes julgavam estar abrindo os olhos da velha e conquistando a confiança dela. E a relação, antes opaca e inexistente, passou a ficar colorida e próxima. Jantares aos parentes foram dados, ocupando, enfim, a imensa mesa da sala de jantar. Todos riam alto, comendo e bebendo com satisfação, tirando proveito do dinheiro que num passado não tão distante “repudiaram”.

   Mas numa manhã de sábado ensolarado, a idosa voltou a ficar doente. Era folga de Albertina, então, estando com a casa cheia de familiares, d. Sônia pediu que lhe servissem o café da manhã na cama. Não demorou para que uma bandeja bem-servida fosse colocada à disposição. Em seguida, pediu ajuda para fazer a toalete, ao que a sobrinha se apresentou, levando a tia e ajudando-a no lavabo. Mais tarde, sentiu fortes dores abdominais, pelo que pediu que alguém pegasse uma fralda geriátrica no armário e colocasse nela, evitando, assim, uma sujeira desagradável na cama de lençóis importados. A fralda não tardou a aparecer, mas dessa vez, ninguém se prontificou em ajudar a idosa, afirmando não terem experiência no assunto.

   O dia seguinte foi mais embaraçoso. D. Sônia sequer conseguia comer sozinha e derrubava desastrada a comida que tentavam lhe dar, deixando a roupa uma completa imundície. Agora, nem em pé conseguia ficar, e, na ausência da fralda, os lençóis deixaram de ser brancos para dar lugar a um tom amarelo e marrom, úmidos e malcheirosos. Um dos parentes, rendido, disse afinal:

   - Chamem a diarista. E chamem logo.

   A segunda-feira começou radiante para d. Sônia. A casa voltou a ser habitada apenas por ela e por Albertina, dedicada e solícita, como sempre. A velha levantou-se com plena disposição. De roupa limpa e asseada, nunca se sentira tão bem antes. O mal-estar de um idoso, d. Sônia o sabia, era um meio único e infalível de revelar grandes verdades.



Cristiane Krumenauer é autora de Atrás do Crime e Chamas da Noite (romances), Memória, Imaginação e Narração (crítica literária) e da série Contos da Namíbia (contos de suspense)

terça-feira, 29 de novembro de 2016

CaNiBaIS - PaIXãO e MoRTe Na RuA Do aRVoReDo

Um dos crimes mais hediondos da História!


Estava dando uma olhada no meu acervo, a fim de escolher um livro sobre o qual escrever em meu blog, quando vi Canibais – paixão e morte na Rua do Arvoredo, de David Coimbra (Porto Alegre: L&PM, 2006) e pensei: bem, não é policial, enquadra-se no gênero histórico, mas traz uma trama digna de ser lembrada pelos brasileiros, principalmente porque foi inspirada em fatos reais! A ficção partiu de um dos crimes considerados mais hediondos do planeta: a história do açougueiro José Ramos e de Catarina Palse, que atraíam suas vítimas a fim de assassiná-las, fazendo de sua carne a linguiça mais deliciosa da província de São Pedro (Nossa!).


A realidade macabra

Os crimes da Rua do Arvoredo ocorreram entre 1863 e 1864, na cidade de Porto Alegre, a antiga província de São Pedro.
José Ramos, ex-soldado da Polícia, após assassinar Carlos Klaussner e se apropriar de sua casa na antiga Rua do Arvoredo (atual Rua Fernando Machado); assumiu também a profissão da vítima: tornou-se um próspero açougueiro.
Passado algum tempo, Ramos conhece Catarina Palse, de beleza estonteante, e, ambos, estando aliados, fortalecem-se como peritos nos crimes, enriquecendo às custas dos bens e, não se sabe ao certo, da própria carne das vítimas.


Perfil dos criminosos

Ramos era uma ambiguidade em si mesmo: culto, frequentava os espetáculos do Theatro São Pedro, apreciando a música erudita e vestindo-se muito bem para os padrões da época. Por outro lado, a forma como assassinava grotescamente suas vítimas – com um machado que lhes partia o crânio, a degola muito utilizada nas revoluções gaúchas, o esquartejamento hábil e certeiro – revelava um sujeito frio e calculista, um verdadeiro sociopata, sem escrúpulo algum na sua busca por poder.

Catarina Palse, da Hungria, diferenciava-se das demais mulheres recatadas da província, o que, por si só, chamava a atenção dos homens e enraivecia as esposas. A húngara não hesitava em usar suas qualidades físicas para atrair as vítimas do sexo masculino até sua casa, sempre com a desculpa de que o marido, o açougueiro Ramos, estava viajando. Quando adentravam a casa sinistra, no entanto, percebiam tarde demais que se tratava de uma armadilha.


A linguiça de carne humana

Após assassinar e esquartejar as vítimas, o açougueiro Ramos tratava de descarná-las e temperá-las, preparando a linguiça mais famosa da região. Essa era uma forma eficaz e lucrativa de se livrar dos cadáveres. Os ossos ele jogava num poço desativado do pátio da casa.
Contudo, a ideia de transformar os habitantes da cidade em canibais inconscientes era chocante demais. Muita controvérsia surgiu a respeito deste detalhe, e nos autos do processo, algumas folhas passaram a desaparecer oportunamente. Por que desapareceram? Justo as folhas que davam conta da parte mais monstruosa do crime? Talvez porque o escândalo seria imenso – um trauma difícil de se superar ao confirmar o canibalismo nos clientes do açougueiro. Mas se o processo não confirma, boatos é que não faltaram à época; e até nos dias atuais, a tal rua do Arvoredo ainda causa arrepios e assombra muita gente.


A ficção de David Coimbra

O autor se baseia em personalidades históricas e personagens fictícias para compor seu enredo. José Ramos, Catarina Palse, o chefe de polícia Dario Callado, a Bronze, a baronesa do Gravataí, o príncipe de Ajudá, entre outros, existiram. Já os três amigos Antunes (o padeiro), Brasiliano (o anspeçada) e Walter (o sapateiro) foram criados pelo autor.
Diversos detalhes na ficção situam o leitor no tempo, ou seja, no século XIX: a rotina sombria da província oitocentista, atormentada à noite por assaltos de escravos foragidos, aflita durante o dia por rivalidades entre raças (portugueses contra alemães, alemães contra portugueses, e todos contra os negros), bem como detalhes específicos da cultura local, das crenças e dos costumes marcam o romance como histórico.
A descrição da cidade, por exemplo, é bastante verossímil à época da narrativa. O autor descreve até o sistema sanitário local, em que várias residências possuíam apenas um buraco aberto no solo, nos fundos da casa, onde os moradores faziam suas necessidades fisiológicas. Também descreve que outras “construíam patentes de madeira, os dejetos eram depositados em uma espécie de barril, que, depois de cheio, era esvaziado em algum terreno baldio ou mesmo na rua, enchendo o ar da cidade de miasmas insuportáveis, sobretudo no sufocante calor do verão” (p.95-6). Outros pagavam assinaturas pelos serviços dos cabungueiros: “Os cabungos eram barris de madeira que serviam de latrina. Uma vez por semana, um funcionário chamado cabungueiro, geralmente negro, iam às residências que possuíam assinatura, retirava o cabungo e trocava por outro, limpo e desinfetado com creolina. O cabungo cheio era fechado e carregado de carroça até um trem, que o levava até uma volta do Guaíba, onde teria seu conteúdo despejado” (p.96).
O leitor também consegue identificar o tempo do romance por meio das antigas crenças, hoje consideradas ingênuas após a evolução da ciência: “... de algumas contraíra doenças venéreas, como a terrível blenorragia. Isso apesar dos cuidados que tomava. Depois do sexo, procedia como o recomendado para expulsar do corpo a contaminação – urinava com três jatos fortes, às vezes quatro. Sentia-se limpo, então” (p.134).
A questão racial não poderia ficar de fora. Não num período tão cheio de desavenças e preconceito, tempo em que se dava o povoamento do sul, tempo em que os brasileiros se sentiam ameaçados pelos imigrantes, os quais prosperavam devido à experiência adquirida na Europa, enquanto os da terra amargavam pobreza e miséria. Os negros, em época de escravidão, obviamente também sofriam e se diferenciavam dos demais, pois sequer eram considerados seres humanos: “Ramos não permitia que negros ou pardos andassem nas calçadas ao lado dos brancos. Exigia que os cadáveres dos cativos fossem logo retirados das ruas para serem sepultados, o que se tratava de uma medida higiênica – amiúde, quando um escravo morria, seu relapso proprietário se livrava do corpo simplesmente rojando-o em algum terreno baldio perto de casa, como se fosse lixo” (p.148).
Mas não são apenas as descrições históricas que enriquecem a obra. Nela, um personagem, o sapateiro Walter, de princípio um homem comedido e fiel à dor de sua viuvez, vai acabar provocando grande reviravolta no percurso natural dos assassinatos, graças à súbita paixão despertada ao conhecer Catarina. Ele pode ser a redenção dela, a promessa de uma nova vida, mas, para isso, terá que sobreviver ao assombroso Ramos. Um personagem fictício que, para infelicidade de Catarina em carne e osso, não existiu. Dizem que a bela, após vários anos na prisão, acabou morrendo de frio e fome nas ruas da cidade. Uma vingança providenciada pela própria vida depois de tantos atos cruéis junto ao açougueiro. Na ficção, contudo, o mesmo não acontece e, respeitando os leitores que certamente desejarão ler o livro após esta matéria, não revelarei o destino da húngara.


A lenda urbana na ficção

É maravilhoso poder percorrer as ruas de uma Porto Alegre que não vivi, acompanhando os passos dos personagens do romance, como os de Brasiliano e seu simpático cão Januário. Subir as ladeiras, cruzar a rua da Praia, tudo isto num cenário de mais de um século atrás. Já havia pedido a um amigo, natural da capital gaúcha, que me levasse até lá, como se, de certa forma, meus olhos pudessem resgatar um passado que não pertence a mim. Não temporalmente. Apenas geograficamente. A violência dos crimes do açougueiro ficou eternizada na memória de todos nós. Virou lenda. Continua sendo contada de geração a geração. O medo foi substituído pela curiosidade, mas a reação diante de tamanha frieza continua sendo de um absurdo sem igual. A obra de David Coimbra ficcionalizou o que estava no imaginário coletivo e eternizou, por meio de palavras, o que, de qualquer maneira, jamais poderá ser esquecido por nenhum habitante de Porto Alegre, ou, melhor dizendo, do mundo todo.

Afinal, o que você sentiria ao saber que comeu uma saborosa linguiça... feita do cadáver de um vizinho seu?





sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A EsPeRanÇa na CaCHoRRa


    E essa agora? O marido aparece em casa, tentando agradar, portando uma shih tzu no colo de apenas 45 dias? “É presente de Natal”, ele diz, derretido pela filhote, que chora fraquinho, baixinho, e só para de resmungar para tentar arrancar um filete ou dois de carne dos dedos que a seguram.

   Eu apenas sacudo a cabeça, temendo o quanto posso sofrer por causa daquilo. E, tentando remover a ideia do marido de ter uma cachorrinha, conto-lhe sobre meu triste passado, quando tinha apenas dez ou onze anos:

   - Você sabe que eu já tive cachorros antes. Um deles, o Toquinho, subiu a escadaria correndo e começou a arranhar a porta da cozinha para que minha irmã e eu a abríssemos. Ele estava desesperado, gania por algum motivo que não sabíamos. Quando abrimos a porta, o cachorro se escondeu debaixo da pia, respirando de boca aberta, arquejante. Aí, caiu a ficha: um vizinho havia envenenado o bicho. O pior de tudo é que o animalzinho pediu ajuda, e não pudemos fazer nada... O veneno foi corroendo-o, queimando-o por dentro. Sofreu muito antes de morrer e, por isso, não quero mais animal algum.

   O marido, atento à narração, volta a acariciar a pequena shih tzu, mantendo o silêncio. Então, após refletir por alguns segundos, conclui:

   - Ah, entendi. A sua decepção, na verdade, não foi com o bichinho-cachorro, foi com o bicho-homem... tão cruel a ponto de envenenar seu animal. Você e essa mania de confundir as coisas...

   Na verdade, não. Eu só não queria sofrer daquele jeito... de novo. Mas, enfim, enquanto eu remoo umas sombras do passado, a shih tzu, agora no chão, vem para mim, louca pela possibilidade de morder os dedos do meu pé. Rio, sentindo cócegas... E me esforço para mudar minha cabeça, minha visão realista e sofrida de mundo. Enquanto a pequena destrói minhas chinelas Havaianas, provocando risos na família toda, digo em voz alta:

   - Já é hora de esquecer o passado e a crueldade do mundo. Estamos em dezembro, mês de se esperar por algo melhor da vida. 



 








terça-feira, 22 de novembro de 2016

A arte de saber esperar - microconto

   Diz-se que havia um menino que era interpelado por um adolescente de apenas treze anos, que sempre “pedia” seu dinheiro a caminho da escola. À época, acabava entregando-lhe as moedas do lanche, temendo alguma agressão, e os consecutivos atos do pedinte só vinham a deixar-lhe ainda mais fraco, tanto de ânimo quanto de corpo, visto ficar sem o que comer nos intervalos escolares.

   Os anos passaram, o menino cresceu, se tornou adulto, conseguiu emprego. E continuou tendo que dividir parte de seu salário com o “pedinte”, agora também de barba na cara, mas sem escrúpulo tampouco vergonha alguma. 

   Certo dia, contudo, ocorreu-lhe uma ideia e perguntou ao vagabundo:

   - Você sempre a pedir esmolas! E se eu não lhe entregar o dinheiro?

   - Aí, irmão, vou ter que te assaltá.
   
   - Vai me assaltar?

   - Pode ter certeza, mano!

   Aí, o homem pegou a carteira em mãos, abriu-a de forma que o “pedinte” visse as quatro notas de cem reais dentro, e, para espanto do bárbaro, voltou a guardar a carteira sem entregar nenhum tostão.

   - Eu te avisei, f.d.p., se não me der.... – E arrancando uma faca, disse, ameaçador: - Isso é um assalto, desgraçado. Passa toda grana aí.

   O ameaçado, ainda tranquilo apesar da situação, esboçou um leve sorriso no canto da boca. Então, inesperadamente, chutou a faca, imobilizou o bandido contra uma árvore e colocou com habilidade umas algemas que trazia consigo, devido à profissão que adquirira sem o outro saber.

   - Você está preso, amigo. Só estava esperando você deixar de ser um “pedinte” para assumir o papel de ladrão. Demorou...  mas esse é o meu dia de sorte!

   O bandido saiu arrastado, resistindo. E o menino, agora um policial, foi levando o preso, com a satisfação de ter o dever de vários anos finalmente cumprido.

   Moral: Trabalhe muito e aguarde. A oportunidade surgirá.

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Cristiane Krumenauer 

Autora de Atrás do Crime, Chamas da Noite, Contos da Namíbia e Memória, Imaginação e Narração.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

QUEM É você, LEITOR DE LIVROS POLICIAIS?



      Toda vez que um escritor se aventura em iniciar um livro policial, deveria se questionar: para quem vou escrever? Quem é o meu público? Bem, questões complicadas essas, afinal, como padronizar os leitores, considerando-os todos iguais e colocando-os num mesmo patamar, como se a individualidade de cada um não existisse? Sim, entendo que ser humano nenhum no mundo seja igual ao outro, entretanto, ao analisar o perfil daqueles malucos que gostam de literatura policial, podemos encontrar algumas características em comum.

     Vou listar dez dessas características. A maioria dos leitores vai se enquadrar em, no máximo, seis delas. Acima disso, bem, aí já não considero o elemento um fã do gênero, mas um fanático, um maníaco perigoso à solta, que ou é do ramo investigativo ou pretende ler livros policiais para se especializar no crime (que coisa feia!).

Vamos às características:

1) Gosta de mistério

O mistério é condição sine qua non para um fã da literatura policial. Ele se sente instigado a descobrir, junto ao detetive (ou antes dele), a grande verdade reveladora de muitas perguntas. O leitor desse gênero tem o hábito de se antecipar ao enredo, tentando prever as próximas ações das personagens.

2) Gosta e desgosta de ser mais inteligente que o escritor

Nessa tentativa de antever o que vai acontecer, de tentar se antecipar à leitura, o leitor sente prazer quando constata que estava certo. Contraditoriamente, isso não significa que ele irá gostar da obra, pois a mesma acabou se tornando previsível, o que é lamentável para quem curte desafios.

3) Tem raciocínio lógico e desconfia de tudo

O leitor presta atenção em todas as pistas deixadas na estória e faz várias constatações. Ele é muito desconfiado e se o detetive disser “o criminoso é o fulano”, então, isso já é suficiente para que o leitor inocente o suspeito. Normalmente, um livro policial tem sua leitura concluída com várias anotações, rabiscos e dobra de página. É porque o leitor registra as evidências que levam ao criminoso ou capta nas palavras do narrador algo suspeito, e utiliza tudo para tirar suas próprias conclusões.

4) Não curte sentimentalismo

Se o(a) detetive é casado ou não, se namora ou se envolve amorosamente, isso pouco atrai o leitor do gênero. Claro que uma pitadinha de romance ajuda a construir um plano de fundo atraente e torna o enredo mais verossímil. Contudo, o leitor vai fazer uma leitura mais superficial nesses trechos, porque esse tema, para ele, faz parte de um segundo plano.


5) Torce muito por justiça, via legais ou não

O criminoso pode até sair impune quando, de alguma forma, acaba conquistando o leitor. É o caso do jovem Ripley, em O Talentoso Mr. Ripley, de Patrícia Highsmith; ou o Mestre da Logística das Drogas, de Atrás do Crime. No entanto, geralmente, o leitor quer ver o vilão pagar por seus erros. Não importa como, se na prisão ou por castigo imposto pela própria vida, o antagonista precisa pagar por seus crimes, e o leitor sente-se aliviado de toda tensão da leitura quando isso ocorre.


6) Gosta de sentir adrenalina

O leitor gosta de tensão. A parte em que a vítima está prestes a ser pega; ou a que o criminoso está prestes a ter sua identidade descoberta por alguém, certamente, é o auge. Veja exemplo de um trecho em que um jovem adolescente, infiltrado na organização criminosa para passar informações à Polícia Federal, está prestes a ser desmascarado por um membro do tráfico:

Um barulho de passos impediu-o de fotografar as demais folhas. Marcos J. K. apressou-se em guardar tudo novamente no armário. Os passos aproximavam-se cada vez mais. Não teria tempo de sair dali sem ser percebido. “O que faço? O que faço?” Alguém se aproximava. Estava perdido! Enrolava a folha transparente o mais rápido possível. Não tinha mais tempo. O som dos passos se tornou bem mais intenso até parar por completo. “Pronto, fui pego!”, pensou, trêmulo, enquanto tentava disfarçar diante da máquina de café expresso da sala de reuniões.
 (Atrás do Crime, p. 141)

7)  Inteligente, gosta de uma trama bem planejada do início ao fim

O leitor gosta de uma trama bem amarrada, sem pontas soltas. Delicia-se quando vê uma obra baseada numa pesquisa profunda, que traz detalhes enriquecedores e verídicos do que está no enredo. Além disso, quer que todos os personagens tenham motivo para terem sido colocadas na estória. Nada de supérfluo. Tudo está ali por uma razão e o leitor vai fazer questão de avaliar isso.

8) Gosta de saber passo a passo da investigação

Os procedimentos policiais ou das instituições precisam ser verídicos ou, ao menos, bem verossímeis para convencer o leitor. Não é à toa que muitos policiais de carreira vêm se aventurando no ramo de escritor do gênero. O problema é que o domínio das técnicas investigativas não resulta, necessariamente, em um livro com qualidade estética.

9) Adora encontrar gafes no enredo

O leitor experiente na leitura, cuja aptidão de desvendar o crime foi aos poucos se aperfeiçoando, será detalhista o suficiente a ponto de poder encontrar gafes no enredo, caso elas existam. Bom para o ego do leitor, péssimo para a conceituação que terá do escritor.

10) Gosta de sofrer até as últimas páginas

Como dito no item 1, o leitor adora um mistério. Então, caso descubra os segredos com muita antecipação, vai acabar perdendo interesse pelo livro. O leitor pode até descobrir segredos paralelos ao mistério principal antes do verdadeiro desfecho, mas a cereja do bolo deve ser apresentada só mesmo no final.

É isso aí... Você, leitor, possui quantas dessas características? Até 6? Mais do que isso??? Sem problema, nós, escritores, estamos aqui, prontos para encher a sua estante com obras eletrizantes do gênero policial. Quanto mais você ler, mais facilmente descobrirá o que está atrás do crime.

Fique bem, leia muito!















Cristiane Krumenauer






segunda-feira, 24 de outubro de 2016

MISTÉRIO NO CENTRO HISTÓRICO, de TAILOR DINIZ – um Policial repleto de humor

     
     Estava navegando pelo site da editora Dublinense quando encontrei um romance que me chamou a atenção: “Mistério no Centro Histórico”, de Tailor Diniz. Li a sinopse, gostei e como se trata de um autor bem conhecido, procurei-o no Facebook para solicitar amizade. Minha surpresa? Eu já era amiga dele, e nem havia me dado conta. Casos típicos do Face, não é mesmo? Você vai adicionando amigos ou vai sendo adicionada, mas a amizade só acontece depois de um segundo passo, ou terceiro, ou quarto...  Bem, o segundo passo se concretizou quando sugeri trocar nossas obras: enviei o Atrás do Crime; ele, o Mistério no Centro Histórico; e, a partir daí, uma caixinha de surpresas foi se desvendando aos meus olhos junto ao inteligente e perspicaz detetive Walter Jacquet.


      A obra é ambientada em Porto Alegre, descrita com ares de boemia, o ar refrescante do bairro Moinhos de Vento e, como o próprio título sugere, o sombrio porém sedutor centro histórico. Outro personagem, Joãozinho Macedônio, o acovardado frente ao mundo, é introduzido no enredo. Joãozinho, após várias experiências fracassadas nos negócios, aventura-se agora na literatura, e, com a visita de seu amigo de infância, o famoso detetive Jacquet, direto dos Estados Unidos, vê uma oportunidade de apresentar a sua “novelinha” e angariar algumas sugestões (ou simplesmente alguns elogios ao seu ego abalado). 

      Walter Jacquet, por sua vez, diante de uma narrativa que descreve a explosão de uma bomba em Porto Alegre e a posterior prisão, quase imediata, do suposto terrorista, fica completamente intrigado com a forma como o caso foi “solucionado” pela polícia. É aí que Jacquet decide investigar o caso, alertando o amigo escritor que sua novelinha estava muito superficial, era necessário aprofundar os fatos. Joãozinho parece contrariado, preferindo a lei-do-menor-esforço, alegando que gente grande poderia estar envolvida, o que representaria uma ameaça não só ao detetive, mas também à mesada que recebe da família para simplesmente não causar mais problemas à sociedade.

      O que ocorre depois é pura diversão. Joãozinho provoca risos nos leitores e até a secretária não poupa de dar-lhe boas broncas. Lembrou-me o espírito bem-humorado de Luís Fernando Veríssimo e, para falar a verdade, achei que esse tom de humor tornou a obra de Tailor Diniz peculiar diante de muitos outros romances policiais, onde o que predomina é a tensão. A leitura ficou fluída, engraçada, inteligente. Que toque de mestre!

      Sem contar que o velho espírito gaúcho (o de se achar superior aos demais brasileiros por suas antigas façanhas) é bem retratado e acaba sendo questionado na narrativa. Por um lado, o oportunista Secretário de Vigilância e Proteção à Cidadania do Estado afirma que o terror até tentou chegar nas terras sulinas, mas que foi imediatamente desmantelado pelos órgãos de segurança mais eficientes do país. Por outro, o detetive Jacquet se questiona: por que os terroristas estariam de olho no Rio Grande do Sul? O que ganhariam explodindo a marquise de um prédio velho um ano após o atentado nos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001?

      A crítica a esse sentimento exacerbado dos sul-rio-grandenses, contudo, não é áspera. Pelo contrário, é bem-humorada, é divertida e acho que a obra revela ainda uma outra essência do gaúcho: o gosto por rir, por celebrar a vida, por viver leve.


      Finalizo dizendo que o livro é genial. Um policial irreverente e bem escrito.  Aos fãs do gênero, um toque de humor raramente visto e um mistério que vocês, leitores, irão gostar, e muito, de desvendar. 

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Especial Dan Brown - segredos do sucesso

   

  Quem leu O Código da Vinci e não se apaixonou pelo estilo deste que, ao meu ver, é um dos maiores escritores de ação de todos os tempos? Autor de Anjos e Demônios, Ponto de Impacto, Fortaleza Digital, Inferno e O Símbolo Perdido, suas obras já foram publicadas em 54 línguas e 200 milhões de cópias já foram impressas.

     Quem me conhece, sabe que não sou muito fã de best sellers. Geralmente, os escritores que o mercado elege como excelentes não me atraem muito com sua “arte”, mas garanto: Dan Brown é o cara! E inúmeras razões me levam a concluir isso.

     Primeiro, antes de criar o universo ficcional, Dan Brown (e sua equipe atual de trabalho) pesquisam exaustivamente. O cenário escolhido frequentemente é o real e não existe como mero pano de fundo. Muitas vezes, o cenário é mais importante que o protagonista, e, por isso, o narrador o descreve fielmente em todos os aspectos: histórico, cultural, social. Isso, por si só, já torna a obra de Dan Brown diferente em termos estéticos, afinal, a estratégia possibilita que o leitor conheça a fundo o local e saiba que ele não foi eleito pelo escritor por mero acaso.

     Em Inferno, por exemplo, somos levados a um passeio incrível por Florência e, definitivamente, somos informados de muitos segredos que o lugar esconde. Enquanto eu estava na Galeria Uffizi, apreciando as obras de arte ao vivo e em cores (as mesmas obras que podiam ser encontradas na Bíblia coloridíssima de minha família), não parava de pensar: haverá passagem secreta neste lugar, levando-me a ponte Vecchio? Ou a algum outro ponto da cidade? Pois Dan Brown desvela esse e outros segredos; e, para isso, precisa pesquisar muito. A impressão que o leitor tem, portanto, é a de que o enredo foi parcialmente planejado antes de o autor começar a escrever. Dan Brown sabe onde pretende chegar antes de escrever as primeiras linhas da ficção e trata de dominar bem o assunto antes de partir para a aventura.

     Outra estratégia crucial que faz com que sua narrativa nos deixe sem fôlego:  capítulos curtos, intercalados com a fala do narrador e a dos personagens (lembre-se de que quando os personagens falam, a narrativa ganha mais rapidez e agilidade) e que se encerram com uma frase bombástica que deixa o leitor em alerta de que algo acontecerá no próximo capítulo. Se você tiver algum livro do Dan Brown em mãos, pode conferir o final de cada parte. Cito O Símbolo Perdido como exemplo: “Você logo perderá tudo o que lhe é mais precioso” (p. 13). Ou então, “E agora, finalmente, seu último peão havia entrado no jogo” (p.21). São frases de impacto, percebe? Curtas, porém ameaçadoras, levando o leitor a uma pequena descarga de adrenalina.

     Obviamente, essa não é uma estratégia somente deste escritor. Outros bem antes dele já a utilizavam para criar uma atmosfera de suspense e perigo, mas não tratemos disso agora, não é? Por ora, concentremo-nos neste autor maravilhoso, na certeza de que, em suas obras, teremos contato com um trabalho bastante sério, com uma pesquisa (de campo e bibliográfica) incansável e com um enredo eletrizante, rico culturalmente e geograficamente. Por fim, também seremos agraciados com um herói bem realista, sem super-poderes e sem ser indestrutível, mas com um intelecto que desafia desmantelar os planos maquiavélicos de muitos vilões, desmascarados somente no desfecho da narrativa.



FORTALEZA DIGITAL - SINOPSE

Brown mergulha no intrigante universo dos serviços de informação e ambienta sua história na ultra-secreta e multibilionária NSA, a Agência de Segurança Nacional americana, mais poderosa do que a CIA ou qualquer outra organização de inteligência do mundo.

Quando o supercomputador da NSA, até então considerado uma arma invencível para decodificar mensagens terroristas transmitidas pela internet, se depara com um novo código que não pode ser quebrado, a agência recorre à sua mais brilhante criptógrafa, a bela matemática Susan Fletcher.

Presa numa teia de segredos e mentiras, sem saber em quem confiar, Susan precisa encontrar a chave do engenhoso código para evitar o maior desastre da história da inteligência americana e para salvar a sua vida e a do homem que ama.

FORTALEZA DIGITAL – CURIOSIDADES


    Primeiro livro do autor, ainda não tinha o professor Robert Langdon como protagonista. Ainda assim, já se nota a habilidade de Dan Brown de chegar à pessoa certa e arrancar dela informações secretas, tão protegidas por governos do mundo todo. No livro, há muito detalhe técnico da área de informática, mas a compreensão em nada fica prejudicada pelos leigos (como eu) no assunto, já que o autor tem aptidão em escrever com uma linguagem fluida e envolvente. 




     Gostaram da matéria? Então, deixem seu comentário e compartilhem. Juntos, podemos fazer a divulgação sem recursos financeiros.

     Até a próxima!

     Por Cristiane Krumenauer
(autora de Atrás do Crime, Chamas da Noite 
e da série de suspense Contos da Namíbia)




segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Difundindo o trabalho pelo Brasil


Olá, amigos do blog. Aqui, acompanhem a entrevista dada à revista Arca Literária. Discuto sobre a tendência da literatura atual brasileira e sobre a obra Atrás do Crime, explicando por que esse livro tem conquistado o coração dos leitores. Se gostarem, comentem. Se não gostarem, também kkk. Grande beijo.

Entrevista ao Arca Literária

Book trailer da série Contos da Namíbia


O Caso dos Números, de Gunther Schmidt de Miranda

Olá, amigos e leitores. Hoje, gostaria de lhes apresentar O CASO DOS NÚMEROS (Ed. Verve, 2016), do escritor Gunther Schmidt de Miranda. Aliás, esta não é a primeira obra do autor – ele já havia lançado O Caso Helena, em 2014, pela mesma editora, e, em ambos os livros, conhecemos as enrascadas do inspetor Marlos, um policial honesto, obcecado pelo trabalho, cercado de amigos e, é claro, de inimigos que se sentem ameaçados pela astúcia do investigador. 
Em O Caso dos Números, é um serial killer que manipula todo um sistema para colocar Marlos no próprio encalce. O assassino é inteligente e pesquisa tudo sobre suas vítimas de modo a utilizar esse conhecimento a seu favor. Após a morte de cada uma delas, escreve seu romance policial, onde descreve com minúcia e crueldade como o crime ocorreu. Um detalhe importante: todas as vítimas também eram escritores e morrem de forma semelhante a um dos personagens que criaram.
A missão de Marlos, então, é bastante desafiadora: cabe a ele se antecipar ao assassino. Só assim será capaz de desvendar a misteriosa identidade do malfeitor e parar, de uma vez por todas, com a loucura sanguinária do psicopata.
Assim, o leitor embarca na investigação como numa viagem sem volta, acompanhando os passos de Marlos e seguindo seu raciocínio. Os diálogos tornam a leitura bastante ágil e as descrições são feitas na medida certa – sem cansar e sem serem muito reduzidas.
Certamente, devo considerar Gunther um ótimo colega no mundo artístico do romance policial. Mais uma prova de que a literatura nacional tem muito a contribuir e de que podemos, sim, abastecer a estantes dos queridos leitores de nosso país sem dependermos do exterior! Literatura nacional – eu acredito, sim, e tenho razões óbvias para nunca deixar de acreditar!


quinta-feira, 2 de junho de 2016

Atrás do Crime


Há ficções que servem para revelar os segredos do mundo real...

Atrás do Crime vai te levar ao submundo do tráfico, às burlações da lei e à inimaginável vida dos que sobrevivem com o crime.